Nietzsche, Dionísio e os vinhos de Vilmar Bettú.



Ele é uma figura rara, peculiar. Tão peculiar quanto os vinhos que produz e levam o sobrenome da família. E nem é pelo fato de usar um rabo de cavalo, coisa bastante incomum para pessoas na casa dos 62 anos, como é o caso deste professor de Física da rede estadual gaúcha. Acontece que há uma década Vilmar Bettú decidiu, com o irmão e um sócio, passar a fabricar vinhos – bons vinhos – apenas para consumo próprio. E tudo isso sem muito alarde, quase nenhuma divulgação, discretamente. Exatamente como são as degustações que acontecem na Rua São Gabriel, bairro Guarani, no município de Garibaldi, onde Vilmar mora – mesmo lugar, a propósito, onde seus ascendentes, vindos da Itália, decidiram estabelecer-se, há mais de um século.

A história de Bettú remonta, como se deduz, à chegada dos primeiros imigrantes italianos à Serra gaúcha, no final do século 19. O avô de Vilmar foi quem plantou, nas novas terras da família no Brasil, as primeiras mudas de uva Isabel. Algumas daquelas videiras somam 117 anos de vida e ainda produzem – e como: são cerca de 50 quilos por pé. Trata-se de uma variedade de mesa, mas também adequada para a produção de sucos e vinhos comuns, bem diferentes daqueles que Vilmar passou a produzir a partir de 1999. Hoje, são mais de 30 variedades, boa parte das quais cultivadas em parceria com agricultores de diferentes cidades, como Nova Pádua, Mariana Pimentel, Vacaria, Encruzilhada do Sul, e até algumas de Santa Catarina. “Mas desde que eles façam do jeito que eu quero”, ressalta Bettú. E o que é que Vilmar quer de seus parceiros? Quer atenção e dedicação total, desde a poda até a colheita. “Alguns não estão dispostos, então nem avançamos”, explica. Cabe salientar, desde logo, que ele trabalha com uma produção limitada a 5 mil quilos por ano, o que equivale a mais ou menos 5 mil garrafas, quase nada, se comparado com os volumes processados por vinícolas médias e grandes do Rio Grande do Sul. Além disso, Vilmar prefere trabalhar com um leque bastante variado de sabores, o que significa que dificilmente algum de seus vinhos terá mais do que 500 garrafas em uma mesma safra. Vai daí que os preços necessariamente estarão alinhados a esta escala: o vinho mais barato de Vilmar hoje sai por R$ 58, enquanto o mais caro pode chegar a R$ 750.

Para alcançar a qualidade almejada, em detrimento da quantidade, Vilmar chega ao ponto de custear, por exemplo, o equivalente à produção de um parreiral de 2 mil quilos para que, de fato, o dono da terra e das viníferas produza e lhe entregue apenas 500 quilos. A equação é fácil de explicar: menos cachos por pé significam uvas com nutrientes e qualidade suficientes para, em tese, dali resultarem grandes vinhos. É o que Vilmar quer. Outro detalhe: se por acaso a safra não tiver sido favorável para determinada variedade, Bettú nem se estressa. Fica para a próxima. “Só se consegue manter a qualidade se não há preocupação com prazo”, explica. O espaço onde Bettú vinifica as uvas é reduzido. Ele ocupa o porão da casa do pai, que completa em 2009 nada menos que 94 anos. Ao lado do local onde estão localizados alguns tanques de inox com capacidades mínimas (100, 500 e mil litros, no máximo), está a área reservada para recepção dos visitantes e degustação. São duas salas: na maior, cabem 12 pessoas – “não recebo grupos maiores, em hipótese alguma”. Na menor, cercada por pipas antigas, há uma mesa redonda, com seis lugares. Tudo pensado para que cada momento vivido ali seja intenso, saboroso, especial. “Há mais ou menos uns 35 anos eu já pensava em mostrar a mais pessoas como é que se faz vinho. E é também uma forma de conhecer gente interessante, porque quem nos procura e se dá ao trabalho de vir até aqui é porque tem algo diferente”, narra Vilmar.

E foi com esse espírito que visitei Bettú no feriadão de 12 de outubro. Após breve contato telefônico, chegamos até sua casa. Bettú nos aguardava na entrada, acompanhado de um dos seus três cachorros. Imediatamente conduziu-nos até o porão-adega e entabulamos uma conversa. Falou-nos do perfil das pessoas que o procuram: gente de todo Brasil e muitos – cada vez mais – do exterior. Disse que a procura tem aumentado e que apesar de gostar muito de receber, percebe que precisará em breve ser um pouco mais seletivo.

Sentados à mesa menor, serviu-nos um Chardonnay 2008 sem passagem por madeira. Fresco, delicado, intensamente aromático. Se aquele era para abrir os trabalhos, vinha coisa boa pela frente. Enquanto serve e se serve (ele bebeu conosco todos os vinhos servidos) fala sobre a família, de porque os grandes produtores não querem fazer grandes vinhos, de aquecimento global (do qual desdenha) e da sua formação como engenheiro.

Veio o primeiro tinto: um Merlot 2007, com 6 meses de barrica. vinhas do Vale dos Vinhedos. Ainda rude, taninos muito duros, exalando juventude. Deixamos ele na taça (sempre de cristal, em formatos e tamanhos diferenciados, já que a ideia era degustar uns quinze vinhos) e Bettú nos trouxe entre um Marselan, um Nebbiolo e alguns cortes, os dois vinhos que mais me encantaram: um Corte Bordalês 2002 e um Malvasia de Candia licoroso 2005. Sobre o primeiro: vermelho tijolo escuro, halo superficial levemente alaranjado, um nariz cambiante com violetas, noz-moscada, couro fresco. Na boca a genuína expressão de um vinho evoluído, com uma fruta vermelha delicada envolta por sabores diferenciados de tabaco, espresso, chocolate, toques animais. Um vinho em seu auge, intensamente prazeroso. Olha, sério mesmo, lembrou-me um grande Gran Cru de Bordeaux. O Malvasia de Candia é uma história à parte: segundo Bettú, o Vale é úmido demais para podridão nobre. Esse vinho, elaborado com uvas-passa, é feito interrompendo a fermentação com álcool (grappa): âmbar, denso, espesso, um roseiral a céu aberto no olfato e em boca de uma acidez vívida, dulçor na medida, com sabores evocando a damasco, tangerina e um delicado toque de mel de laranjeira. Na boca, tem a estrutura de um bom beerenauslese, o álcool marcante equilibrado por boa intensidade de fruta. Assustadoramente delicioso.

Vou ficando por aqui. Se o relato interessar podemos falar de outros vinhos (Cabernet Franc, Marselan Ipê, Corte Montepulciano e o famoso Nebbiolo Bettú), mas não poderia deixar de dizer mais umas poucas palavras.

No Prefácio para Richard Wagner presente em O nascimento da tragédia: ou helenismo e pessimismo Nietzsche nos diz “estar convencido de que a arte é a tarefa suprema e a atividade propriamente metafísica desta vida”. Assim, arte e vida se relacionam à medida que a primeira é uma manifestação da segunda. A arte de Vilmar Bettú é uma manifestação tipicamente dionisíaca: desmedida, vibrante, autêntica, como a música, o sofrimento, o sexo. Uma experiência e tanto.



**PS: os dois primeiros parágrafos foram extraídos de uma matéria publicada na revista da Bertolini. A matéria: Pequenas Quantidades, todas as qualidades.

Chateau Musar 1999

CHATEAU MUSAR 1999

Origem: Líbano, vale do Bekaa.

Uvas: Cabernet Sauvignon, Cinsault e Carignan
Álcool: 14%

Vermelho claro, meio pálido, translúcido. Halo de superfície atijolado.

Nariz marcante, com acidez volátil tipo vinagre e meia-velha. Meu colega de mesa diz que é cheiro de rato. Depois de uns 45 minutos parece um mercado indiano, tamanho o cheiro de especiarias.

Servido a 17º após 90 minutos de decantação.

Na boca pareceu-me mais um vinho do Languedoc ou Provençal evoluído que um Bordeaux, como ouço dizer. Taninos bem domados, média acidez, equilibrado, com fruta bem marcada. Fim de boca delicioso, lembrou-me chocolate com menta. E uma persistência infinita. Wow! O vinho não sai do palato.

Foi minha primeira experiência com esse tal Musar. O cheiro de meia-velha ou meia-molhada é bem típico dele e deve-se à presença de Brettanomyces. Alguns chamam de tipicidade, outros de defeito. E aí?

Vejam o que diz Jamie Goode do wineanorak.com a respeito do Chateau Beaucastel, vinho do Rhone que costuma apresentar traços de Brett:

"parece provável que algumas das safras de maior sucesso recente tenham sido marcadas por elevados níveis de Brett. Isso nos leva a uma crítica e fascinante questão: Brett é sempre uma coisa ruim? Em pequenas quantidades, ela pode ter uma influência positiva sobre determinados estilos de vinhos tintos?
Se pesquisas como as de Chatonnet devem ser extrapoladas para todos os vinhos, é provável que muitos vinhos com níveis acima do limiar de Brett receberam a aclamação da crítica, tendo sido apreciados por inúmeros consumidores. Isso leva à conclusão de que enquanto a maioria das pessoas não vai apreciar um vinho muito fedido, baixos níveis de Brett podem não ser um problema de fato, um pouco de Brett pode até acrescentar complexidade a determinados estilos de vinhos robustos."

É cheiro de meia velha que dá muito pano para manga...

Cheval des Andes e a Malbec com elegância.




Joint venture de Pierre Lurton do Chateau Cheval Blanc e de Roberto de La Mota da Terrazas de Los Andes.
O vinho é um corte bordalês com predomínio de Cabernet Sauvignon. Um boa parcela de Malbec (+/- 40%) e pequenas porções de Petit Verdot. Vinhas velhas para a Malbec (74 anos) e mais jovens para as outras variedades (15 anos). Detalhe importante: vinhas Malbec não enxertadas pré-filoxera.


Ainda muito jovem, fechado no olfato, violáceo, impenetrável à luz. Em boca percebe-se a mistura de estilos. Elegância par e passo com a fruta em confit. Macio, redondo, taninos domesticados, pouco se percebe o carvalho (são 18 meses de barrica nova). Carece de um pouquinho mais de acidez. Há de crescer com a guarda já que ao fundo notam-se sabores ainda escondidos nessa pequena jóia. Não costumo regozijar-me com os caldos argentinos mas aqui temos algo mais complexo e sedutor.

Vai um Verdicchio aí?

O consumo de vinhos finos no Brasil é coisa recente. Da infalível garrafa azul do alemão docinho do início dos anos 90 aos bombados malbecs dos hermanos dos dias de hoje, um hábito continua difícil de entender: por que consumimos menos os brancos que os tintos?
Um amigo proprietário de loja de vinhos informa que a proporção no varejo é de 8:2 (T:B). E haja vinho bombadão para os dias quentes dos trópicos.

As eventuais aventuras pelo mundo dos brancos costumam restringir-se aos Chardonnays ou quando muito, um Sauvignon Blanc (confirma o mesmo amigo). Mas há tanta coisa a se descobrir por aí. E algumas preciosidades com excelente custo-benefício. Cito uma: Verdicchio. O meu preferido:

Verdicchio dei Castelli di Jesi Podium 2005

Produtor: Garofoli

Importador: Cellar

Amarelo Dourado belíssimo com reflexos verdeais. Bouquet frutado, amplo: Um mix de frutas amarelas maduras e notas herbáceas. Chama atenção o marmelo bem nítido e algo de figo também. Cambiante como dizem os espanhóis. Na boca apresenta boa acidez, é elegante e equilibrado. Fim de boca lembra amêndoas com um amargor muito agradável. Belíssimo custo-benefício ao custo de R$ 45,00. Detalhezinho muito interessante: aguentam e evoluem bem com a guarda por 7-8 anos.

Vinhos caros, meu caro.


Com o dólar a R$ 1,80, mesmo valor de setembro/2008, pré-crise, nossos importadores teimam em manter os preços. Nada de redução.

E que a Mistral não me venha com a conversa fiada que seus preços são em dólar... aumentaram todos (em dólar) nos últimos anos. É só dar uma olhadinha nos catálogos.

Acredito que os managers do mercado de vinhos desejam manter o consumo de vinhos finos só para gente 'fina'. Visão míope e turva que deriva em um mercado triste e de mau gosto. Como um vinho ruim.

Retomando.

O blog renasce. Com a ajuda de deus Baco.

Uma vela para Alois Kracher

Morreu nessa semana o homem que criou alguns dos melhores vinhos doces de todo mundo: Alois Kracher, químico e enólogo austríaco.

O Einswein de sua autoria é sublime.

Que os herdeiros assumam com honra e dignidade.

E a vida segue.